segunda-feira, 25 de julho de 2016

POEMA DE JORGE DE LIMA do livro "Poemas Negros"

HISTÓRIA

Era princesa.
Um libata a adquiriu por um caco de espelho.
Veio encangada[1] para o litoral,                    
arrastada pelos comboieiros.
Peça muito boa: não faltava um dente
e era mais bonita que qualquer inglesa.
No tombadilho o capitão deflorou-a.   
Em nagô[2] elevou a voz para Oxalá.
Pôs-se a coçar-se porque ele não ouviu.
Navio guerreiro? não; navio tumbeiro.

Depois foi ferrada com uma ancora nas ancas,
depois foi possuída pelos marinheiros,
depois passou pela alfândega,
depois saiu do Valongo[3],
entrou no amor do feitor,
apaixonou o Sinhô,
enciumou a Sinhá,
apanhou, apanhou, apanhou.
Fugiu para o mato.
Capitão do campo a levou.
Pegou-se com os orixás:
fez bobó  de  inhame
para Sinhô  comer,
fez aluá[4] para ele beber,
fez mandinga para o Sinhó a amar.
A Sinhá mandou arrebentar-Ihe os dentes:
Fute, Cafute, Pé de Pato, Não-sei-que-diga[5],
avança na branca e me vinga.
Exú  escangalha  ela,  amofina  ela,
amuxila[6]  ela  que  eu  não  tenho  defesa  de  homem,
sou  só  uma  mulher  perdida  neste  mundão.
Neste mundão.
Louvado seja Oxalá.
Para sempre seja louvado.

Comentário: Poema em versos livres com rimas ocasionais, linguagem coloquial com termos oriundos da cultura afro. Essa história mostra que a beleza nem sempre livrava uma negra do seu destino miserável e sofredor. No início da história o maior valor dessa linda negra são os dentes, mas o que acontece com eles? A sinhá por ciúme mandou arrebentar seus dentes. A solução é sua vingança através do feitiço. 

Esse trabalho faz parte do estudo sobre várias obras selecionadas para exame vestibular para UNICAMP. Livro estará pronto na www.agbook.com.br a partir de primeiro de agosto.


[1] Presa por meio de canga, como se prende o boi.
[2] Idioma  de origem africana, mas na verdade o termo designa o africano vendido como escravo na costa nigeriana, cujo idioma na realidade era o iorubá.
[3] Cais do Rio de Janeiro onde os negros eram desembarcados e vendidos.
[4] Bebida refrigerante feita com grãos de milho esmagados.
[5] Termos utilizados para designar o diabo.
[6] Termo não dicionarizado, mas o sentido óbvio é de “acaba” com ela.

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