domingo, 16 de agosto de 2015

ABUNDANTEMENTE


Abundam as bundas na praia, seminuas, sem vergonha,
como as índias do Pero Vaz de Caminha.
Caminham as bundas nas calçadas,
muitas de calças, raras de saias,
todas se insinuando, empurrando o tecido.
Abundam as bundas nas praças:
uma bunda passa,
uma bunda passa pra lá,
outra bunda passa pra cá.
Uma bunda vai, outra bunda volta.
Há bunda que me revolta
porque a bunda mexe pra lá,
porque a bunda mexe pra cá,
porque a bunda mexe... com a gente,
que indigente pede esmola,
a esmola de um olhar,
de uma atenção qualquer,
qualquer bunda de mulher.
A bunda bole,
bole, bole, a bunda mole,
macia, parece que diz bom-dia!
A bunda bole com o moço,
A bunda bole com o velho,
com o homem maduro.
A bunda não olha idade,
ela não tem a mínima caridade!
Passou agora pela rua afora
uma bunda tão triunfante
que o moço deu com a cara no muro.
Se a bunda passa, o olho sai à caça,
mesmo quando é uma bunda escassa.
Passa uma bunda exuberante, a b u n d a n t e.
Há bunda que não passa... fica!
Como diria Vinícius:

Essa pacifica!”  

(Geraldo Chacon, a sair no próximo livro.)

INÍCIO DE MINHA VIDA LITERÁRIA

No outro blog (blogdoprofessorchacon.blogspot.com.br) Já contei sobre minhas experiências no teatro, falemos então sobre minha lida na vida literária. Escrevi meu primeiro livro, de poesia, impulsionado por meus alunos, principalmente uma classe enorme (Anglo Consolação, SP) de alunos vibrantes e rebeldes, mas com os quais me dei muito bem. Eles fizeram uma lista com nomes e endereços no final do ano, 1986, pedindo para publicar meus poemas e avisá-los para irem ao lançamento. Esta é a capa do livro, que contava com ilustrações de um aluno meu de outro cursinho, Intergraus; Carlos Naef. Carlos tinha na época 19 anos e cursava artes plástica na ECAP-USP. O prefácio foi feito por meu ex-professor (na época meu colega de trabalho no Colégio Bandeirantes) Ubaldo Luiz de Oliveira, que por amizade exagerou nos elogios. A edição de mil exemplares esgotou-se em um ano, o que para um iniciante considero uma boa aceitação.Interpretando o poema título.
Outro foto do palhaço.

sábado, 25 de outubro de 2014

ANSIEDADE E HUMILDADE

             O Dalai Lama quando questionado sobre seu modo de lidar com a ansiedade, deu uma grande lição de humildade e sabedoria, colocando como exemplo sua ansiedade antes de uma palestra a fazer: "Creio ter a honestidade e a motivação adequada é o segredo para superar esses tipos de medo e ansiedade. Portanto, se estou ansioso antes de uma palestra, costumo me lembrar de que a razão principal, o objetivo de proferir a conferência, é o de pelo menos trazer algum benefício às pessoas, não o de exibir meu conhecimento. Portanto, aqueles pontos que conheço eu me disponho a explicar. Aqueles que não entendo perfeitamente... não fazem diferença. Digo apenas que para mim aquilo é difícil. Não há nenhum motivo para esconder nada, nem para fingir. Com esse ponto de vista, com essa motivação, não preciso me preocupar quanto a parecer bobo ou me incomodar com o que outros pensem de mim. Descobri, portanto, que a motivação sincera atua como um antídoto para reduzir o medo e a ansiedade." (p. 305 de A Arte da Felicidade)
          Que pena! Muitos de meus professores na USP e muitos colegas meus dos tempos de cursinhos não tiveram esse saber e essa postura. Só que os alunos sempre percebem quando o mestre está tentando enrolar porque não conhece bem o assunto.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Significado de Paquetá e Guaratinguetá em tupi.

Na postagem anterior falei sobre alguns termos em tupi. Logo me apareceram algumas perguntas. Engraçado, sempre sobre cidades. Itanhaém, por exemplo, perguntaram porque notaram o ita que significa pedra, e querem saber o nhaém, o que é. Bem, significa prato e semelhante ao inglês, o tupi inverte os termos nesse caso, em vez de dizer "prato de pedra", apenas inverte e junta os termos "ita + nhaem", daí: Itanhaém.
Guaratinguetá apresenta uma terminação bastante comum em vários outros nomes de lugares, etá, que significa muito. Exemplo: Paquetá, resulta da fusão de paca + etá, logo o lugar devia ter muitas pacas no passado. Tinga é branco e guyra é ave, pássaro, logo devemos concluir que em Guaratinguetá as garças eram abundantes.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Significado de Itanhangá e Ipanema

Encontrei alguns equívocos em sites e blogs, por isso resolvi esclarecer aqui algumas coisas. Em vários sítios encontrei explicações que diziam, "é termo tupi-guarani", isso não existe, pelo menos foi o que aprendi com o prof. Eduardo Navarro, quando frequentei seu curso na USP (como ouvinte). Ou é tupi ou é guarani, como há o espanhol e há o português. Então, em tupi, i é rio ou água, daí que piraí, significa rio do peixe. Pira é peixe, então piracaia é peixe queimado. Em i + panema, o encontro forma "água fedida ou podre" como significado. O segundo termo funciona como adjetivo, uma característica do termo anterior. Então, itanhangá não poderia significar espírito de pedra, como vi em um dos lugares que procurava explicar o significado do termo. Ita é pedra e anhangá é um espírito da floresta (em um sítio encontrei diabo como significado, absurdo, os índios não tinham a noção dessa figura); então um sentido mais próximo da nossa cultura itanhangá seria "pedra viva", revelando a percepção de determinada pedra como dotada de alma, de espírito. Mais algumas palavras de que me lembro rapidamente: itaúna, pedra preta; ibiuna, terra preta; iúna, água preta; iguape, de i = rio + gua = enseada + pe = preposição em, o que deve ser traduzido como "na enseada do rio".

terça-feira, 21 de outubro de 2014

UM GAÚCHO DE PERNAMBUCO? EM ARRAIAL DO CABO?

O GAÚCHO DE PERNAMBUCA

(Está incluso no livro A VIDA QUE EU VI publicado pela Agbook.)
      Você conheceu o gaúcho da Pernambuca? Não, da Pernambuca mesmo. Não é de Pernambuco, já imaginou que gozado; um gaúcho de Pernambuco? Nada disso, era daqui da praia de Pernambuca, na divisa de Arraial com Araruama. Falei era daqui, por falar, ele apareceu, assim, do nada, um dia apareceu pedindo comida na casa da Rose, essa que trabalha aqui com a gente na pousada. Ela diz que ele nunca falou do passado dele, nem as outras pessoas que conheciam ele, ninguém nunca soube de onde ele veio, nem o que fazia antes. Aqui, ele pedia. Era um pedinte. Mas pedia com educação, com humildade. Era gentil, engraçado. Vez em quando trabalhava em coisa simples como cortar uma grama, ajudar alguém a cavar um buraco, um alicerce. Bebia, mas não de cair na rua ou fazer vexame.
      A Rose diz que a primeira vez que ele apareceu no portão dela, fez figura, falando com educação:
     - Minha senhora, desculpe-me se a incomodo, mas estou com fome e gostaria de lhe pedir para me arrumar alguma coisinha para comer.
     - Entra, vem comer com a gente.
     Parece que até esse dia ninguém tinha convidado ele para entrar, sentar na mesa com a família. Então, ele acabou voltando mais vezes e depois ficava conversando como se fosse um velho amigo da casa. Costumava ajudar em alguma coisa, teve um dia que ele até levantou antes da mesa, antes dos outros terminarem, e lavou toda a louça, assim, naturalmente, conversando, como se fosse um costume dele.
     Aconteceu um dia, de ele aparecer e a Rose ficar sem jeito, aborrecida, porque não tinham qualquer mistura em casa. E quando falou isso para ele, ficou ofendido, protestando que que ela estava pensando dele, que era como eles, que se eles iam comer sem mistura, ele também comeria porque ele não era ninguém especial, não era mais do que eles, que bobagem é essa, ele falou. Então ela pôs comida para ele que comeu tudo e quando terminou, elogiou:
       - Que feijão com arroz mais gostoso! Comidinha boa assim, nem faz falta de mistura.
      Várias semanas depois disso, a coisa ficou preta pra eles. O marido dela quebrou a perna jogando bola num domingo e ficou sem trabalhar uns dias. Ela precisou gastar com remédio para um filho que ficou muito doente. Até que certo dia, comeram o resto do que havia em casa e ficaram sem nada, mas nada mesmo para comer. Ela até desligou a geladeira depois que ficou vazia. E foi nesse dia que apareceu mais uma vez o gaúcho. Nessa época, ele já não chamava mais no portão, entrava direto. Quando Rose viu ele na cozinha, porque a casa dela não tinha sala, a cozinha servia de sala-copa e cozinha, então, como eu dizia, quando ela viu ele, ficou muito triste e a cara dela não engana ninguém, o que ela sente fica na cara. Se ela tá bem, você olha, vê ela sempre risonha, com aquele bocão escancarado. Se está ruim, não há jeito dela rir, de jeito nenhum. Então o gaúcho olhou para a cara dela e viu logo que a coisa não estava boa. Perguntou e ela falou:
       - Hoje tá difícil. Ele de um movimento rápido e natural abriu a geladeira e fechou.
       - Puxa vida, não tem nada mesmo!
      Só falou isso e saiu imediatamente sem nem mesmo dizer tchau. A Rose não achou estranho, não pensou nada a respeito do gesto dele. Eu, quando ela me contou, achei que ele foi um ingrato, quando havia comida ele ficava, conversava, agora, numa hora dessa, será que ele não podia conversar um pouco? Não é? Isso, distrair ela um pouquinho. Mas não era nada disso não, umas duas horas depois, ou pouco mais, voltava o gaúcho com uma senhora e os dois, em cada mão, traziam uma sacola, cheia de alimentos e ainda duas quentinhas cheirosas. A Rose virou uma cachoeira de tanto chorar.

     A Rose continua trabalhando aqui. Ele não, morreu. Ah! Não sei lhe dizer não. Só sei que o gaúcho morreu.
Geraldo Chacon

sábado, 18 de outubro de 2014

PORTUGUÊS FALADO NO BRASIL

LÍNGUA BRASILEIRA OU PORTUGUÊS FALADO NO BRASIL?



          Durante a semana alguém manifestou seu desejo que denominássemos nossa língua de brasileira e não de portuguesa. Nao hora disse-lhe que não via motivo para isso, mas não argumentei, nem desenvolvi o assunto, por falta de tempo. O problema, no entanto, ficou dando voltas na minha cabeça como um besouro inoportuno.
          Não foi a primeira pessoa que me disse isso e lembro-me vagamente de, no passado, já ter também pensado dessa maneira. É óbvio que nos orgulhamos do nosso idioma e olhamos para ele com certa vaidade e satisfação por saber que ele foi enriquecido pela língua dos índios, dos africanos, italianos e tantos outros povos com seus idiomas característicos. Claro que não podemos deixar de lembrar as mudanças que nós mesmos vamos proporcionando a cada dia, quase sem perceber, e quando damos conta, a linguagem dos nossos filhos já ficou muito distante da que falavam nossos queridos avós. Isso é fatal, irreversível e não há como impedir.
          Veio-me à lembrança uma mudança que acompanhou a minha existência desde 1970, quando me preparava para fazer o vestibular da FUVEST. Uma de minhas professores, disse que a palavra aperitivo no português arcaico, ainda em formação, significava purgante. Aconteceu um dia, dizia ela, que um sujeito foi tomar uma bagaceira, quer dizer, uma cachaça lá dos ibéricos, e fez uma careta quando enguliu, comeu logo um torresminho para tirar aquele gosto ruim, e reclamou:
        - Que horror, que aperitivo é esse que tu me deste, ô Manuel?
      Todos se riram e daquele momento em diante, vários passaram a pedir um trago com o novo nome: “Ô Manuel, dá-me um aperitivo daqueles teus!” E a moda pegou. Explicava nossa mestra, que o portuga tinha feito uma comparação entre as duas situações, ele estava tomando algo de gosto forte, desagradável, de barriga vazia, assim como quem tomava purgante. Nas duas situações, costumava-se dar uma cuspida e comer logo algo por cima, para tirar o gosto ruim.
        Em menos de dez anos, creio que foi em 1976, estava eu na casa de uma família, esperando pelo almoço para o qual tinha sido convidado. Estava com uma fome de cão abandonado. Lá da cozinha, vinham os sons de vozes e ruídos de panelas e tampas e outros acessórios da arte culinária. Em dado momento, a gentil dona da cssa foi ver como eu estava e perguntou se eu não queria um aperitiva. Fui bastante franco, porque agora chegava também, até meu nariz, o aroma da comida em preparação. Joguei verde:
         - Não, muito obrigado. Eu não posso beber nada assim, de barriga vazia, fico bêbado em poucos minutos.
          - Não, não é bebida, não! São uns queijinhos, torradinhas, coisas assim para enganar a fome até o almoço ficar pronto.
        Claro que aceitei e comi tanto que depois almocei só para fazer companhia e jus ao convite. A partir dali, incorporei que aperitivo não era mais apenas líquido alcoólico que se bebe antes da refeição, com desculpe para abrair o apetite. Daquele momento em diante, aperitivo era qualquer bebida ou alimento sólido que se toma antes da refeição principal. Se tivéssemos o interesse e a paciência de Guimarães Rosa, poderíamos fazer uma pesquisa e levantar uma porção de palavras que tiveram seu significado ampliado ou totalmente alterado pelos nossos compatriotas.
      Outra coisa de que nos orgulhamos é da riqueza de nossa língua. Um amigo meu, José de Alencar, calma, não aquele, o escritor, que não sou tão velho assim. Alencar é um paulista de cuja amizade pude privar desde os quinze anos. Ele ficou indignado certa vez, numa palestra na Biblioteca Mário de Andrade, ao ouvir um francês comparar e dizer que a língua francesa era mais rica do que a nossa. Alencar ficou furibundo porque, assim como nosso romântico escritor, amava o nosso idioma, especificamente o português falado no Brasil. Eu me lembrei disso imediatamente ao escrever “queijinhos” alí em cima. Recordei porque o meu amigo então pediu ao palestrante que traduzisse algo como “uma cazinha”, quando o francês fez a tradução literal, Alencar protestou:
        - Não senhor, eu não lhe disse “uma pequena casa” nem “uma casa pequena”, mas uma casinha.
       É natural que o francês não tenha entendido. Quando eu digo: “ontem conheci uma velhinha”, não estou dizendo que a mulher era pequena, mas que era bem velha mesmo, ou então que era uma velha muito simpática e eu fiquei querendo um bem muito grande a ela. Muitas vezes empregamos o diminutivo para expressar nosso carinho. Por isso, quando digo minha casinha está às suas ordens, os convidados não se espantam ao encontrar um casa com quatro quartos, sala ampla, cozinha muito grande. Constatam o carinho que sinto por ela e, também, podem notar aí um pouco de falsa modéstia. Isso também faz parte de nossa cultura.

      Não estou agindo cientificamente, nem era essa minha intenção, mas raciocinando como pessoa comum e não como professor. Quero apenas argumentar e convencer a quem pensa como a pessoa que me fez ter esses pensamentos, que tudo isso não justifica criar uma nova denominação para o idioma português. É e será sempre o português falado no Brasil, assim como o inglês falado nos Estados Unidos, na Austrália, ou o francês falado no Canadá e nos países colonizados pela França. Como diria meu amigo Paquale: “É isso aí”.
Geraldo Chacon